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18/03/2017

Cultivar e guardar a criação -artigo do padre Junior V. do Amaral - Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe





Estamos em pleno tempo quaresmal, e no Brasil, de forma especial, somos convidados pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) a celebrar a Campanha da Fraternidade de 2017 sob o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, cujo lema bíblico é: “Cultivar e guardar a criação”, inspirado em Gn 2,15. Deste convite, que a Igreja nos invoca, a saber: participar da co-criação divina, cultivando-a e guardando tudo o que foi criado, nos advém uma instigante questão: ou cuidamos de nossa casa comum, a Terra, ou todos nós perderemos, sofrendo as consequências dos maus tratos ao ecossistema, à natureza e à vida humana, amplamente ameaçada.

Faz-nos oportuno, para elucidar a questão levantada acima, reler a riqueza da narrativa bíblica do livro de Gênesis (Gn), que nos incita a pensar a Criação como dom de Deus e realidade com a qual Ele mesmo se relaciona, pois, diz-nos Gn 3,8, que no fim da tarde, Deus caminhava pelo jardim do Éden, estes passos de Deus pelo Éden lembram-nos os passos do jardineiro que observa detalhadamente sua obra. Ainda, Deus cria as mais variadas espécies (Gn 1,11-28), que surgem do nada (Creatio ex nihilo), pois Ele nada possuía em mãos para criar, e, assim, tudo passou a existir, como diz Gn 1,2, pela Palavra, que tudo criou. Assim diz o narrador de Gênesis: “Deus disse: ‘haja a luz’ e a luz passou a existir” (Gn 1,3). Tudo foi criado por Deus e sem Ele nada poderia existir. Deus também não tinha necessidade de sua Criação, Ele a criou por seu exclusivo desejo, fruto de seu querer benevolente, de sua ação bondosa. E, no sexto dia da Criação, Ele fez o homem à sua imagem e segundo sua semelhança. Vizinho do sétimo dia, o homem está muito próximo da plenitude da criação, o dia sabático de Deus, dia em que Ele cessou de criar, dia este em que Deus percebeu que tudo o que havia criado era bom, muito bom, esta insistência em dizer que tudo era bom, leva-nos a pensar na bondade da criação. A alusão à Gn 1-2,4a, o primeiro e extenso relato da criação de Deus, nos possibilita a pensar Gn 2,15, o relato proposto para a CF, deste ano de 2017. Deus, depois de criar todas as coisas colocou o homem, Adão (de Adam, que significa “humanidade”), no jardim do Éden, a fim de que ele o cultivasse o e guardasse. A humanidade, portanto, é colocada como cuidadora do jardim de Deus.

Da leitura atenta e profunda de Gn 1 e 2, pode-se constatar que a criação, querida e constituída por Deus, tem como guardião o ser humano. Somos guardiões de todo este mundo-santuário criado, somos guardiões da vida, templo no qual Deus melhor se manifesta, vida esta que pulsa dia e noite no coração da Terra, da terra muitas vezes ressequida e sem água, da terra sofrida pela agressão e ganância de latifundiários, terra largamente ferida em seus sulcos pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, que correm com as chuvas para os mananciais, terra explorada em suas riquezas mais preciosas, até clamar e chorar seu próprio fim. Deus sofre com toda a agressão realizada pelo ser que Ele criou à sua imagem, segundo sua semelhança (Gn 1,26). Deus padece, sobremaneira, com o escandaloso sofrimento humano, de homens e mulheres, escravizados no mundo do trabalho, sem direitos e sem aqueles que os defendam, Deus sofre na pessoa do menor que trabalha escravizado para ajudar no sustento de sua casa, privado muitas vezes do direito do estudo e de ser apenas uma criança ou um adolescente. Deus padece e toda humanidade padece com as misérias proporcionadas pelos próprios seres humanos, semelhantes uns dos outros, parceiros do mesmo “jardim”.

Mediante tais inquietações, que dilaceram o coração de Deus e nossa própria consciência humana, somos convidados a redescobrir nossa missão de co-criadores, de guardiões da criação de Deus, de cultivadores do jardim que Ele, com benevolência, criou e plantou com mãos de jardineiro. Somos interpelados, chamados, convidados pela Igreja neste ano, a defender a vida, defender a Terra, defender o cuidado e a não-exploração de nossos Biomas, a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e os Pampas, toda a biodiversidade em sua fauna e flora, mas, acima de tudo, a humanidade, os brasileiros e brasileiras mais ameaçados, principalmente em sua minorias.


Por fim, somos participantes do projeto de co-criadores, pois também somos membros da Igreja, o Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12). A Igreja mesma hoje se manifesta e se coloca a favor da vida, em toda sua diversidade. Não podemos nos calar diante das injustiças, a profecia não pode acabar.

Somos co-responsáveis pelo mundo que nos cerca, pelo “jardim” onde habitamos, nossa casa comum, a Mãe Terra. Com a coragem e o testemunho de nosso irmão que nos confirma na fé, o papa Francisco, arauto da Misericórdia de Deus, e com toda Igreja neste mundo, porção belíssima do Povo de Deus, que caminha rumo à Pascoa definitiva do Senhor e nossa Páscoa, somos convocados a cuidar desta Terra, amplamente ameaçada, de modo especial em sua mais bela consciência e expressão, a vida humana, que se nos apresenta no rosto de cada um dos nossos irmãos e irmãs, sobretudo dos empobrecidos e marginalizados. Pois, somos, “sim”, neste mundo os guardiões de nossos irmãos e irmãs (cf. Gn 4,9). 

 

Padre Junior Vasconcelos do Amaral

Vigário da Paróquia Nossa de Guadalupe, bairro Castelo

Doutor em Teologia Bíblica pela Faje e professor de Teologia na PUC Minas

 
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