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23/08/2016

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora


 

O Cristão é chamado a  uma vida nova em Cristo, por obra do Espírito Santo, que foi recebido nos sacramentos da iniciação cristã. Tal mudança é iniciada pelo Batismo-Crisma e aprofundada pela Eucaristia. Essa transformação nos situa no mesmo horizonte do mistério que envolveu a Virgem Maria, a morte e a ressurreição do Senhor

 


Pe Danilo César*

No domingo que passou celebramos uma importante solenidade que comemora a assunção de Nossa Senhora ao céu. A afirmação da nossa fé, declara, desde 1950, quando foi promulgado o dogma da Assunção, pelo Papa Pio XII, através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. A Igreja, contudo, não inventa doutrinas a respeito de Maria. As afirmações, estão enraizadas na tradição mais antiga da Igreja  e encontram apoio nas Sagradas Escrituras. Além disso, fazem um sentido profundo para a nossa experiência de Deus e não dizem respeito exclusivamente à Mãe do Senhor, mas a todos os cristãos e, sobretudo, à Jesus Cristo, autor, fonte e origem da nossa fé. O texto que oferecemos, é fruto da celebração do domingo que passou e quer ajudar-nos a contemplar, durante a semana o que vivemos na celebração.

Começando pela ressurreição

 

A Morte e a ressurreição do Senhor é que desencadeia
tudo, que abre
o céu e cumpre as promessas de
Deus cantadas
pela Virgem Mãe no evangelh
o

A segunda leitura nos oferece uma preciosa afirmação que nos servirá de ponto de partida. Na sua carta aos Coríntios, Paulo fala da ressurreição de Jesus “como primícias”. Em termos sacrificais, as primícias eram os primeiros frutos da plantação, ou do rebanho que eram oferecidos a Deus. Com isso, Paulo diz que Jesus é o primeiro a ressuscitar e, assim como na plantação ou no rebanho, outros frutos sucederiam às primícias. O que viria então depois? O apóstolo faz a sua lista, e propõe uma “ordem determinada” (v.23). Primeiramente, diz o apóstolo dos gentios, são aqueles que pertencem a Cristo. Falando de Maria, a Mãe do Senhor, quem senão ela, pertenceria tanto a Cristo? Daqui se pode deduzir, que por pertença, Maria é a primeiríssima depois de Cristo. Ela é toda de Cristo, ela é toda de Deus. Em bom “mineirês”, que aprecia os diminuitivos, às vezes para reforçar uma ideia, Maria é “toda, todinha de Deus”, “todinha de Cristo”, seu Filho.

Com essa leitura proposta pela liturgia do dia, a assunção de Maria fica situada no horizonte do mistério da fé, o mistério pascal de Cristo que inclui sua vida inteira, mas sobretudo, sua morte e ressurreição. Da mesma forma o faz a primeira leitura, tirada do livro do apocalipse, ao dizer: “abriu-se o Templo de Deus que está no céu”. O texto refere-se ao próprio céu, mas ao mencionar, na sequência, que apareceu a arca da Aliança, o escritor sagrado nos remete igualmente ao evento da páscoa do Senhor. Pois foi na morte de Jesus que “rasgou o véu”, expondo a arca da Aliança que ficava no santo dos santos, o recinto mais reservado do Templo, só acessível ao Sumo Sacerdote uma vez por ano. Dito de outra maneira, a morte e a ressurreição do Senhor é que desencadeia tudo, que abre o céu e cumpre as promessas de Deus cantadas pela Virgem Mãe no evangelho que foi lido (cf. Lc 1,55).

Dois modos de pensar a Assunção

Inicialmente, a assunção diz respeito a Maria mesmo. Aquela que, desde o ventre materno era inteiramente (todinha) de Deus, desde a sua concepção no seio de Santana, foi acolhida no céu, pois viveu neste mundo como pertencente às realidades divinas. No evangelho ela é chamada pelo Anjo Gabriel de “cheia de graça”, por Izabel de “Bendita entre as mulheres” (evangelho do dia, v.42) e “bem aventurada” noutra parte por ter gerado, amamentado e escutado fielmente a Palavra de Deus (cf. Lc 11,27-28). Quem tanto pertencia a Deus, e tão inteiramente, só poderia mesmo ir de corpo e alma para o céu! Referenciando-a Cristo, diríamos que Maria colocou Jesus no centro de sua vida, da concepção à ressurreição. A melhor imagem disso está no ícone da dormição de Maria, uma representação da piedade oriental desse mesmo mistério que celebramos: Maria, aquela que guardou Jesus em seu seio aqui na terra, depois de sua morte, é acolhida no céu, nos braços de Cristo, como bebê. Aquele que foi acolhido por ela, agora a acolhe no ventre de Deus.

Maria morreu?

Maria é uma prova da possibilidade que
é a ressurreição,
a primeira depois
de Cristo, por isso,
um modelo para nós

Contrariamente ao que popularmente se pensa a respeito da assunção, Maria morreu mesmo. Do contrário, Maria estaria deslocada do mistério de seu Filho que, sendo homem-Deus, experimentou a morte. A assunção afirma que ela foi inteiramente assumida no céu – de corpo e alma, e que por isso não experimentou a corrupção do pecado e da morte. As palavras do Papa Pio XII na Constituição que promulga o dogma, não deixa dúvidas. Retomando o que ensinamento dos Santos Padres afirmaram: que “não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito, Jesus Cristo”. Noutra parte, o Papa, retomando as palavras de S. João Damasceno, diz: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção”. Admitir a morte de Maria – não a corrupção – a situa como pessoa humana e histórica que participou integralmente da salvação que Deus ofereceu a toda a humanidade. Se podemos dizer, com a festa que celebramos que ela é todinha de Cristo, podemos igualmente dizer, que é todinha da gente. Sua assunção em corpo e alma, após a sua morte, não a qualifica como uma exceção, ou uma privilegiada em detrimento dos demais. Outrossim, Maria é uma prova da possibilidade que é a ressurreição, a primeira depois de Cristo, por isso, um modelo para nós.

Segundo modo de pensar a Assunção

 

A vida cristã: como “grãos de incenso”, precisa das brasas do Espírito, para exalar em louvor e adoração, por uma vida que agrade a Deus

Primeiramente, tomamos Maria como pessoa e a salvação que nela se realizou. Agora a tomamos como modelo para a Igreja. Olhando para Maria, encontramos a nossa vocação, a nossa possibilidade, como dissemos acima. Partindo da afirmação carinhosa de que ela foi “todinha de Cristo”, poderíamos nos perguntar: “somos todinhos de Cristo?”. A resposta sincera a esta questão seria, “Não. Ainda não somos todinhos de Deus”. Acrescentaria, “mas seremos!” A segunda leitura nos fala que todos os que pertencem a Cristo o sucederão na ressurreição. Nisso se inclui, certamente, todos os que fomos inseridos em Cristo, pelo Batismo. A inserção em Cristo deve ser entendida nos termos de uma configuração a ele, pois a pertença a ele opera em nós uma transformação. O Cristão é chamado a  uma vida nova em Cristo, por obra do Espírito Santo que foi recebido nos sacramentos da iniciação cristã. Os estudiosos falam de uma mudança ontológica, mas tal mudança é iniciada pelo Batismo-Crisma e aprofundada pela Eucaristia. Essa transformação nos situa no mesmo horizonte do mistério que envolveu a Virgem Maria, a morte e a ressurreição do Senhor. Mas como fazer para deixar que essa mudança aconteça em nós? Olhemos para a Mãe do Senhor...

Povo na travessia

 

Maria vive em torno da vida de seu Filho. Toda a sua existência, desde o seio maternal, está orientada para ele.

 

O mesmo Espírito que fecundou o coração e o ventre de Maria, abrasando-nos por sua palavra e pela Eucaristia, há de operar em nós o êxodo da transformação, para que nossa vida seja um culto agradável a Deus

Nós, batizados, somos renascidos no seio da mãe Igreja e buscamos, pela fé deixar que Cristo seja o eixo de nossas vidas. Maria é aquela que escutou tão forte a palavra de Deus, que o Verbo se fez carne em seu ventre. Nós haveremos de intensificar mais e mais esta escuta, a fim de fazer coincidir cada vez mais a nossa vida com a vida de Jesus, aprofundando a nossa pertença a ele, e perfazendo nosso caminho na direção da cruz e ressurreição. As leituras do domingo dão indicativos a esse respeito. A primeira leitura fala que a mulher, ameaçada pelo dragão, tivera o filho arrebatado para junto de Deus. Ela fugira para o deserto, onde Deus lhe preparara um lugar. Essa mulher é a Igreja e o deserto é a imagem forte do novo êxodo que a percorre o povo de Deus: da morte para a vida. Também o anúncio de Maria, em seu cântico, recorda o êxodo: o braço poderoso de Deus (v.51), que opera a virada dos pequenos e humildes, como na libertação do povo no Egito. A Igreja, nós todos, estamos em novo êxodo, fazendo nova travessia. “Nossa Mírian”, já entoou o seu cântico de vitória e nos aguarda no céu, a outra margem da travessia, o céu onde foi assumida.

O êxodo deve ser entendido também nos termos da transformação do mundo, das sociedades, da Igreja, das comunidades, das pessoas. Tomando como exemplo, a liturgia da assunção, lembremo-nos do simbolismo do incenso que exprime a alegria e a importância da festa que celebramos. O incenso, como resina granulada, precisa das brasas para exalar o seu perfume. Sem a brasa, sem a fumaça que sobe ao céu, perfumando o ambiente... Assim, a vida cristã: como “grãos de incenso”, precisa das brasas do Espírito, para exalar em louvor e adoração, por uma vida que agrade a Deus. O mesmo Espírito que fecundou o coração e o ventre de Maria, abrasando-nos por sua palavra e pela Eucaristia, há de operar em nós o êxodo da transformação, para que nossa vida seja um culto agradável a Deus, para que perfumemos todos os ambientes, lugares e situações com o bom odor de Cristo, e para que nossas obras nos elevem sempre mais, para junto de Deus.

 

*Pe. Danilo César dos Santos Lima é

mestre em Liturgia  e pároco a Paróquia Santana
 

 
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